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(Portuguese only) – A sociedade brasileira precisa abandonar a ideia de que seus problemas serão resolvidos por um grande pai representado pelo Estado para quem o dinheiro cai do céu. O Estado, gerido pelo Governo, faz apenas tirar de uns para dar a outros. No processo, fica com enorme fatia e o nosso já demonstrou ser péssimo gestor do dinheiro alheio. Por isso as pessoas devem formar poupança para a aposentadoria desde muito jovens, aprender a aplicar dinheiro e entender de governança corporativa para melhor gerir seu patrimônio.

Falar para jovens de 20 anos que, desde já, precisam aprender a investir para prover seu sustento em uma velhice que chegará daqui a 60 anos não é fácil. Menos ainda é mostrar que temas como governança corporativa, melhor alocação de recursos e riscos, o perfil demográfico brasileiro, pulverização do capital das companhias, distribuição de riqueza, sustentabilidade e competitividade do país são temas relacionados, mais ainda. São vários raciocínios longos. Mas vamos por etapas.

Este artigo será escrito em partes.

Parte 1 – As sociedades são sustentadas pela população economicamente ativa

Para falar desse tema, descreverei como se sustenta uma sociedade cuja estrutura econômica é muito simples – uma sociedade como, por exemplo, a dos índios Awá[1]. Suponho que este grupo tenha estrutura econômica semelhante ao de outras sociedades indígenas brasileiras, isto é, sustentam suas populações por meio de uma economia de subsistência simples, da caça e da coleta.

Nesta condição, vivem em perfeita harmonia com o meio ambiente, tirando dele apenas o que necessitam para sobreviver, quando o necessitam. Isso significa também, que estão completamente expostos a todas as intempéries da natureza. Se esta lhes prega uma peça e falta alimento, facilmente passam fome, já que, como produzem só o que consomem e não desenvolvem mecanismos para armazenamento[2] de alimentos, não podem contar com estoques reguladores. As poucas trocas com grupos adjacentes dependem de alianças previamente cultivadas justamente para estes momentos de incerteza. Porém, se o desastre for perene ou resultar de dissidência política interna, pode não haver alternativa. Desequilíbrios estruturais são resolvidos pela busca de outro local mais fértil mesmo que signifique a invasão de territórios de grupos vizinhos[3], isto é, pela “guerra”.

A mera produção de alimento ocupa boa parte do dia e requer grande esforço físico, há pouca divisão e especialização do trabalho e a que existe baseia-se em critérios como idade e sexo. As atividades econômicas exercidas pelos homens são as que requerem maior força e agilidade muscular, como a caça e a defesa, enquanto as mulheres cuidam da agricultura de subsistência, da preparação de alimentos e da reprodução da mão-de-obra[4].

As crianças, à medida que crescem, contribuem para o sustento da sociedade da mesma maneira que os velhos, ainda que em atividades fisicamente mais leves, continuam a trabalhar até a morte. Espera-se que cada um dê sua contribuição para o sustento do grupo ainda que o grosso deste seja executado pela população adulta – aquela que os economistas chamam de população economicamente ativa.

Quando ouvimos estórias de que em algumas destas sociedades parturientes matam recém-nascidos fisicamente imperfeitos ou que velhos ficam para trás para morrer quando não mais podem contribuir para o seu sustento, não estamos ouvindo relatos bárbaros, mas ações racionais de humanos que sabem que não produzirem excedente para alimentar aqueles que não podem por si só, dar contribuição equiparável para o sustento do grupo. Portanto, o direito de pertencimento está associado à participação econômica e a população economicamente ativa compreende um espectro ampliado de idades incluindo jovens e idosos.  Vale observar que a ética atual de condenação do trabalho infantil não é e não poderia ser compartilhada por uma sociedade deste tipo. Analogamente, a possibilidade de empregar produtivamente toda sorte de deficiência física e permitir que idosos parem de trabalhar, mas recebam remuneração, só é possível em uma estrutura econômica que produz excedente alimentar, realiza trocas e possui vários mecanismos para transferir riqueza para o futuro.

Outro ponto fundamental é que estas sociedades tribais, justamente pela pouca intervenção que fazem nas condições naturais e pela baixíssima produtividade dos fatores de produção (terra e trabalho), não conseguem sustentar grupos populacionais muito grandes. No filme Dança com os Lobos, há uma cena na qual vemos de longe a aldeia. Não são mais do que 30 teepees. Se considerarmos esta configuração a de uma aldeia típica, formos otimistas e acharmos que em cada teepee vivem 10 pessoas, estamos falando de 300 indivíduos por aldeia que provavelmente, morriam aos 35-40 anos! Nosso mundo tem 7 bilhões de pessoas, muitas já vivendo 80 anos! Diante de um planeta que se esgota, precisamos empregar o vasto conhecimento que acumulamos para atingir o equilíbrio sem a utopia de achar que a harmonia dos Awás com o meio ambiente poderia ser atingida sem reduzir a população mundial – envolvendo, evidentemente, a escolha ética de quem merece viver.

Então, sustentabilidade diz respeito a como as sociedades se sustentam no presente e o que fazem para preservar as condições de sua sustentação no futuro. Isso, evidentemente, envolve raciocínio sobre a alocação de recursos – escassos – no presente e entre o presente e o futuro[5]. O campo de conhecimento que se dedica ao estudo da alocação de recursos escassos é a economia. Portanto, sustentabilidade, além de envolver questões ecológicas e sociais é, essencialmente, uma questão econômica. No entanto, nem sempre associamos sustentabilidade como um tema para economistas nem os vemos fazendo paralelos com sociedades tribais[6]. Mas isso se deve ao fato de que o estudo de economia como tal, se constituiu no final do sec. XVIII quando viveu Adam Smith. Nessa época a Europa já tinha economias de mercado e estruturas econômicas consideravelmente mais elaboradas do que a dos Awás, Sioux e Masais. Os economistas, então, ocuparam-se da questão da alocação em economias que já contavam com cadeias produtivas muito mais complexas.

Graças ao desenvolvimento da economia de mercado, isto é, aquela na qual se produz mais do que necessário – excedente – a fim de sobrar para a troca (em mercados) e com mecanismos facilitadores da troca (como o dinheiro), podemos: 1) sustentar bocas que não trabalham; 2) dividir o trabalho por critérios de qualificação e habilidades físicas ou não e 3) criar mecanismos de investimento para permitir que se transfira riqueza do presente para o futuro. Então, hoje, as crianças brincam; os jovens preparam-se para engajar na atividade de sustentação da sociedade com maior qualificação estudando até 18-22 anos (investimento em capital humano) e é perfeitamente factível àqueles com deficiências físicas de qualquer espécie virem a se engajar na população economicamente ativa. E, enquanto ativa, essa população tem, cada vez mais, instrumentos por meio dos quais transfere riqueza para o futuro, de tal forma que possam ter como sustentar-se na sua inatividade (aposentadorias).

As cadeias produtivas na nossa economia são tão complexas a ponto de esquecemos que uma simples batata frita percorre um longo caminho até chegar a nossa boca. Afinal alguém aduba um solo e planta a semente, espera crescer e colhe, ensaca, transporta até um atacadista, que transporta para um supermercado, no qual é comprada, lavada, descascada, cortada, fritada, colocada num prato até chegar à sua boca. Em cada etapa desse trajeto existe trabalho remunerado (para quem planta, colhe, transporta, vende, cozinha etc.).

Mas apesar de toda a nossa sofisticação, uma coisa permanece igual – a sociedade inativa (crianças, jovens e aposentados) é sustentada pela população economicamente ativa formada por homens e mulheres que vendem sua força de trabalho[7].

 

Parte 2 – Trabalho remunerado, destino da remuneração e criação de riqueza

Na parte 1 demonstramos, por meio de uma analogia, com em uma sociedade de economia simples  o sustento da sociedade é feito pela população economicamente ativa. Agora, falamos sobre a relação entre a remuneração do trabalho, a poupança e o investimento com o aumento da riqueza.

Ainda que o sustento das sociedades modernas envolva cadeias produtivas longas, complexas e entrelaçadas, em cada etapa do processo produtivo há trabalho que contribui para este sustento e que precisa ser remunerado[8].

Nem todo trabalho que contribui para o sustento da sociedade é remunerado. O caso clássico é o “cuidar” da vida privada (fazer a cama, cozinhar, ir ao supermercado, lavar e passar roupa, limpar casa, cuidar de crianças etc..). Em países em que o desenvolvimento absorveu mão-de-obra em atividades econômicas de maior produtividade existe pouca terceirização deste que fica sem valor atribuído e, por isso, parece até que não envolve trabalho. Em muitos lugares é visto como trabalho de mulher, significando que as mulheres que o realizam não são remuneradas. O fato é comentado em economia pela frase “if a bachelor marries his maid, GDP goes down”. Mesmo em países como o Brasil que, conforme a OIT (2013), se destaca como o de maior contingente de empregados domésticos, a terceirização é executada principalmente por mulheres pouco qualificadas e com baixa remuneração.

Outro trabalho produtivo executado pela mulher que não é remunerado é a reprodução da mão-de-obra. Ainda que a sociedade venha se beneficiar desta produção, ter filhos sequer é visto como atividade econômica. Apenas sociedades que já enfrentam problemas com populações declinantes[9] implementaram remuneração direta (subsídios) ou indiretos (serviços públicos de alta qualidade) para incentivarem as mulheres a reproduzirem, reduzindo o custo de oportunidade de se dedicarem a atividades mais bem remuneradas.

A sociedade brasileira, apesar de ter cerca de 30% de seus lares chefiados por mulheres – estatísticas de PNADs – , tem pouquíssimas políticas públicas apoiando-as. Além disso, nossa cultura vê as mulheres que interrompem a gravidez como criminosas, mas não se considera responsável pelo que acontece com a vida destas mulheres e das crianças que gerarão. O custo de reproduzir a mão-de-obra é particular, enquanto o benefício de sua disponibilidade é público[10].

Há pessoas que não se engajam em qualquer tipo de atividade econômica que contribua para o sustento da sociedade porque podem estar sendo sustentados por outras que trabalham. E há os detentores de propriedade que as empregam para uso produtivo vivendo da remuneração deste capital.

A remuneração do trabalho só tem três destinos possíveis: consumo, impostos e poupança. O consumo volta imediatamente para a economia e a faz girar. Os impostos são utilizados pelos governos para sustentar a máquina governamental, prover serviços públicos, redistribuir renda e investir. E a poupança, se não ficar no colchão, é empregada em algum tipo de investimento, que representará uma transferência de riqueza presente para o futuro. Essa transferência pode ser feita pelos indivíduos ou por intermediação do governo.

Portanto, a habilidade de transferir riqueza para o futuro está diretamente relacionada à aplicação de parte da remuneração do trabalho em investimentos que aumentarão a riqueza futura. Ou seja, é preciso aumentar o tamanho do bolo, que na linguagem econômica se chama PIB.

 

Parte 3 – Transferência de riqueza para o futuro – Previdência Pública e o Panorama Demográfico Brasileiro

Em última instância, a única transferência de riqueza possível para o futuro é mesmo ter filhos, como no caso das sociedades tribais. Porém, nas nossas sociedades complexas, realizamos isto indiretamente por meio de diversos mecanismos, instrumentos financeiros e instituições.

As aposentadorias providas pelo estado, como no caso do INSS brasileiro, por exemplo, vistas de forma simplificada são sistemas solidários “take from Peter to pay Paul”. Isto é, quem está trabalhando hoje desconta um percentual do salário para a previdência pública. Este valor é utilizado para pagar as aposentadorias atuais. Ou seja, os recursos de cada contribuinte não são individualizados e aplicados produtivamente para aumentar o tamanho do “bolo” econômico para que haja mais recursos para sustentá-lo na futura inatividade.

Os problemas desses sistemas de previdência são óbvios. O primeiro é que os valores e tempo de contribuição foram calculados com base na expectativa de vida na época em que foram fixadas as regras do sistema. Por exemplo, se na ocasião a expectativa de vida fosse 67 anos, poderia ser razoável fixar a idade de aposentadoria em 60/mulher e 65/homem com tempo mínimo de contribuição de 30 e 35 anos, respectivamente, pois um homem que se aposentava aos 65 teria que ser sustentado pela população economicamente ativa por apenas dois anos em média. Ora, se a expectativa de vida aumenta para 77 anos, este senhor terá que ser sustentado por 12 anos!

É concebível, neste sistema, que uma mulher que comece a contribuir aos 20 anos, se aposente aos 50 e morra aos 80, seja sustentada na inatividade por exatamente o mesmo tempo que contribuiu. É fácil entender por que esta estrutura tende ao déficit quando há o aumento da expectativa de vida. Por isso, não só é necessário aplicar um fator previdenciário desestimulando aposentadorias por tempo de contribuição, como é premente aumentar este tempo e a idade de aposentadoria à medida que cresce a expectativa de vida e a qualidade da saúde dos mais velhos.

O segundo problema decorre da demografia. Se a tendência é de mais gente entrar na idade economicamente ativa, há menos problema, pois o número dos que trabalham é maior do que o dos que não trabalham. Porém, se a proporção de inativos (jovens e aposentados) cresce em relação à população economicamente ativa e contribuinte, o sistema tende ao déficit, e quando o grosso dos inativos é de idosos, que não mais ingressarão na força de trabalho, o problema é crítico. O Brasil estará nesta trilha se não houver mudança de curso logo.

Ano passado, Fabio Giambiagi[11] escreveu uma série de artigos no Valor Econômico sobre a evolução da demografia brasileira e de suas implicações para previdência. Seus principais pontos para nossa discussão são:

  • Em 2010, a idade mediana na América do Sul era de 28 anos, inferior às da América do Norte e Europa. Em 2050, prevê-se que será de 42 anos, idêntica à da América do Norte e mais próxima dos 47 anos na Europa. Portanto, o envelhecimento de nossa população se dá em ritmo muito mais veloz do que nos países do Norte.
  • Em 2010 a distribuição etária da população brasileira era a seguinte: 25,6% entre 0-14 anos; 64,4% entre 15-59 e 13,7% acima de 60 anos. Em 2050, espera-se que esses percentuais sejam 13,1%, 57,1% e 29,8%, respectivamente. Teremos mais do que 2 idosos para cada jovem!
  • A população projetada em 2010 para 2050 era de 190,8 milhões, bem inferior àquela estimada para a mesma década em 2004 (259,3 milhões). A queda se deu pela diminuição da taxa de fertilidade da mulher, implicando em menor crescimento populacional. De 1940-80 a população brasileira cresceu à taxa de 2,81% ao ano. Esta caiu para 1,59% a.a. na primeira década do milênio e para 0,90% a.a. na década atual. Portanto, os nascimentos de hoje são insuficientes para repor a população e espera-se que a quantidade de brasileiros comece a cair a partir de 2030.
  • Projeta-se uma população de 14,1 milhões com mais de 80 anos para 2060. Isso significa que serão muitos velhos para sustentar e mais gastos com saúde para esta faixa etária. Hoje, quem chega aos 60 tem expectativa de viver até 82; aos 70, até 85 e aos 80 até 89!
  • Outra evidência é não contarmos mais com “bônus demográficos” para jorrar mão-de-obra no mercado de trabalho. Já jogamos o nosso fora com um capital humano de baixa qualificação.

As conclusões fundamentais que decorrem deste panorama são:

O Brasil precisa crescer bastante para ter um “bolo” econômico maior para dividir. Caso contrário, ou teremos a perspectiva de manutenção da divisão de renda profundamente desigual, como temos hoje, ou uma divisão mais igualitária na qual sobra muito pouco para cada um – sendo otimista.

Sem bônus demográfico, continuar crescendo depende de ganhos de produtividade ou de importação de mão-de-obra qualificada. No primeiro caso precisamos educar nossa população com qualidade, inclusive recuperar quem já está trabalhando, pois não dá para esperar por quem só entrará no mercado de trabalho daqui a 20 anos, assumindo que, até lá estes terão melhor qualificação. No segundo caso, nossas condições econômicas não atraem a imigração, muito menos de gente qualificada. A importação de mão-de-obra desqualificada agravará nossos problemas.

É premente que se discuta e se aumente a idade de aposentadoria e o tempo de contribuição, por mais que o tema encontre enorme resistência e políticos de todas as vertentes tenham dificuldade de conduzi-la.  Se essas medidas não forem tomadas a tempo, pode ocorrer o que vemos na Grécia – reduções nas aposentadorias, a não ser que a opção seja cobrir o déficit promovendo maior taxação da população economicamente ativa, isto é, cobrar a conta das futuras gerações.

Igualmente fundamental é alterar a definição de “idoso”. Se as pessoas estão chegando aos 70 com boa saúde física e mental e mobilidade, não há motivo para que sejam subsidiadas por meio de entretenimento mais barato e privilégios de prioridade em filas de banco e supermercados aos 60 anos! Devem e podem continuar trabalhando por mais tempo. Caso contrário as futuras gerações estarão sustentando uma “velharada” serelepe.

Também é necessário que ocorram profundas mudanças na cultura de trabalho e contratação. Se as pessoas trabalharão por mais anos, a quantidade de postos de trabalho terá que aumentar para acomodar um contingente maior de gente ocupada. As empresas terão que encontrar maneiras custo-efetivas de absorver mão-de-obra 45+ o que implica em desafios maiores, pois a redução no custo da massa salarial não poderá ser feito, como hoje, só contratando gente mais nova (salários e seguro saúde menores) para o mesmo trabalho. Terão que aumentar a produtividade e repensar a forma de alocação de funções levando em conta o fator idade.

Nesse contexto é crítico repensar a legislação trabalhista, possibilitando formas mais flexíveis de trabalho por meio de contratos individuais e part-time e todo o sistema de saúde precisa aumentar eficiência, qualidade de gastos e atitudes de medicina preventiva para que os gastos com uma população mais velha possam prover uma medicina moderna e humana, com qualidade a custos não proibitivos para o contribuinte e contratante de seguro saúde.

Para ter tudo isso e um padrão de vida melhor é necessário uma economia maior e mecanismos institucionais e de mercado que facilitem a transferência de riqueza para o futuro, a melhor alocação de recursos e distribuição de riqueza, assunto que trataremos no próximo blog.

 

Parte 4 – Previdência Complementar, Governança Corporativa e Crescimento do PIB

Em complemento ao sistema de previdência pública, que deve pautar-se por critérios de renda mínima e proteção social, existem programas de previdência complementar. Todos devem constituir um fundo previdenciário (ou investir para a sua aposentadoria), assim que começarem a trabalhar, contribuindo regularmente para constituir poupança que lhe sirva de renda na aposentadoria, complementando a pensão da previdência pública e resguardando o padrão de vida que desejam ter. É muito importante que todos se preocupem com isso hoje, inclusive os funcionários públicos de toda sorte que se aposentam com salários integrais – o Brasil não gera recursos para continuar sustentando aposentadorias integrais.

No Brasil, a previdência privada pode ser feita por meio de fundos de pensão constituídos pelas empresas em que os indivíduos trabalham, por fundos livres como o PGBL/VGBL, que funcionam em regime de capitalização, ou ainda pela montagem de uma carteira própria. Os fundos de pensão das empresas – que são fundos fechados – têm a vantagem de receberem a contrapartida da contribuição da patrocinadora, aumentado o nível de recursos investidos. Os VGBLs/PGBLs têm diferenças de tratamento fiscal e cabe a cada um analisar qual é o melhor no seu caso específico. Além das questões fiscais, podem oferecer um seguro em caso de invalidez/morte e opção por renda vitalícia. Para quem tem disciplina e se interessa em aprender a investir, o melhor é ser o próprio gestor de seus recursos (em última instância, mesmo que utilize fundos de pensão, de previdência, etc. – você sempre será o gestor dos seus recursos, portanto quanto mais aprender e se dedicar, melhor).

Vários pontos precisam ser observados:

1) Não existe tal coisa como “almoço grátis”. Tudo tem vantagem e desvantagem e é preciso analisar, caso a caso, seu apetite de risco e seu nível de conhecimento.

2) Um investimento nunca é bom para sempre. As condições mudam e é preciso rever posições com regularidade. Investir e achar que o investimento vai cuidar de si próprio é roubada.

3) Nenhum investimento é bom para todo mundo. As pessoas têm perfil de consumo, risco e dedicação diferentes, por isso o que é bom para um, pode não o ser para outro. Um corretor de bolsa que passa o dia ouvindo boatos de mercado e olhando para telas de Bloomberg pode  arriscar-se em investimentos altamente especulativos e em bolhas, pois é fácil ver quando entrar e quando sair. Não é o caso se você é um mom and pap, um designer preocupado com as últimas tendências da moda, ou um engenheiro inteiramente dedicado ao desafio de um problema de construção.

4) Ouça, mas não acredite piamente em seu corretor, o vendedor de seguros ou seu gerente de banco. Eles dizem que têm seu interesse em mente, mas não é verdade. É o interesse deles que está em jogo. Precisam desovar os produtos do banco, têm metas para cumprir, precisam fazer você girar a carteira para gerar corretagem e você é o meio pelo qual eles obtêm promoções, bônus e aumentos salariais. Isso não quer dizer que não façam boas recomendações, não ofereçam bons produtos nem tenham conhecimento do qual você pode e deve aproveitar-se. Mas você tem que estar no comando.

5) O ponto principal é, independente da forma que você escolhe para poupar, o mais importante é investir. Ou seja, coloque seus recursos em ativos que aumentarão de valor ao longo do tempo (transfira riqueza para o futuro). Em linguagem financeira, ativos que darão retorno no curto, médio e longo, prazos.

Quando se contribui para um fundo de pensão da própria empresa, é preciso conhecer em quê ele investe e quanto bem o gestor maneja seus recursos. Se ele faz um mau investimento – como nessas estórias que ouvimos por aí nos fundos de pensão de empresas estatais – é o dinheiro do participante que está sendo jogado no lixo e é ele que terá menos recursos para sua aposentadoria a não ser que o Estado ou a Patrocinadora entre cobrindo o rombo, o que significa que o resultado da má gestão será coberto com o dinheiro do contribuinte, isto é, você, eu ou o funcionário da patrocinadora trabalharemos para fechar o buraco. Portanto, regularmente, você precisa acompanhar e questionar o que estão fazendo com seus recursos.

Para que os gestores dos seus recursos e as empresas nas quais estes são investidos deem retornos compatíveis, é preciso que haja boa governança – nas gestoras e nas empresas. Por isso você deve conhecer quais são os problemas de governança e as boas práticas propostas para evitá-los, coibi-los e atenuá-los. Você precisa conhecer governança para poder checar se a empresa na qual você investe e os gestores que contrata para gerir seu patrimônio exercem as melhores práticas. A boa governança corporativa baseia-se em princípios tais como equidade de tratamento entre os proprietários, responsabilidade e prestação de contas pelos administradores e transparência, isto é, o provimento de informações necessárias e suficientes para a apreciação das questões e a tomada de decisões, a regular e periódica prestação de contas etc. São inúmeras recomendações que visam proteger a propriedade e os direitos daqueles que são provedores de recursos financeiros. O seu conhecimento de governança não diz respeito a um assunto para conselhos ou investidores institucionais apenas. Diz respeito ao seu bolso e à boa gestão dos recursos que você investe.

De forma geral, os recursos que você aplica são investidos diretamente ou indiretamente em títulos de dívida (debêntures, por exemplo) ou ações emitidos por empresas. Estas usam – ou deveriam usar – esses recursos para expandirem os seus negócios. Se bem investidos, darão retorno na forma de apreciação de capital, pagamento de dividendos ou juros que, se você reinvestir, aumentará seu patrimônio. Coletivamente, o crescimento dos negócios de várias companhias leva ao crescimento do nosso bolo econômico – o PIB – criando a possibilidade de sobrar um pedaço maior para cada um quando dividido.

 

Parte 5 – Alocação de Recursos e Distribuição da Riqueza

Porém é preciso ocorrer mais do que apenas crescimento econômico. É necessário que existam “veículos” para investimentos de “portfolio” como títulos e valores mobiliários que tenham liquidez, caso contrário, podemos ter recursos para investir, mas faltarem ativos “investíveis”. O Brasil evoluiu bastante em termos de veículos para o investimento, mas ainda precisa melhorar muito.

Antigamente, a forma mais comum das pessoas formarem um patrimônio que lhes gerasse renda na inatividade era comprar imóveis ou criar um negócio próprio. Isso não é mau investimento e pelo menos um imóvel deve fazer parte da sua carteira. No entanto, este investimento tem pontos negativos, o principal deles é a falta de liquidez. Se você precisar transformá-lo em dinheiro rápido provavelmente perderá valor. Por isso, diversificar o portfolio em ativos mais líquidos é uma boa recomendação.

O grande provedor de ativos fungíveis e de fácil negociação é o mercado de capitais. No Brasil ele é razoavelmente evoluído, mas pode ser bem melhor. Tanto é necessário que o mercado secundário de títulos de dívida deslanche (aí poderemos ter uma verdadeira marcação a mercado) como a quantidade de empresas de capital aberto precisa crescer.

O Brasil tem hoje menos do que 500 empresas de capital aberto. Destas, como menciona Pedro Rudge em artigo do Valor Econômico[12], cerca de 200 são “investíveis”. A Austrália, com uma economia menor que a brasileira, tem em torno de 2 mil empresas listadas. A Inglaterra tem quase 3 mil e os EUA, 5 mil. Muitos setores da economia brasileira não estão representados e, portanto, não são veículos de investimento para os recursos de poupança dos brasileiros.

Hoje, muitas empresas cujos negócios utilizam os recursos naturais, sociais, humanos, e muitas vezes financeiros do povo brasileiro, só permitem que estes usufruam da sua criação de riqueza por meio da renda do trabalho assalariado e pela redistribuição de renda feita pelo Governo. Não podem tornar-se sócios delas. O problema é tão crítico que os gestores mais sofisticados de recursos já se estruturaram para buscar alternativas de investimento fora do país e até os fundos de pensão de empresas brasileiras, entre elas estatais, obtiveram autorização para investir no exterior.

Assim chego ao ponto principal destes artigos. A importância do desenvolvimento do mercado de capitais em um país capitalista, no qual existe o conceito de propriedade privada, não se dá só por causa do provimento de recursos para as empresas expandirem os seus negócios, mas também para permitir melhor alocação de recursos entre o presente e o futuro, por grau de liquidez, por nível de risco e para que os brasileiros usufruam da riqueza gerada por elas como sócios capitalistas. Ou seja, a distribuição da riqueza do país não deve ser pensada só pela ótica da remuneração direta do trabalho, serviços públicos ou transferência de renda, mas também pela pulverização da propriedade das entidades econômicas que proveem o sustento da sociedade.

Esta forma de pensar dá maior liberdade aos indivíduos para escolherem como querem gerir o fruto do seu trabalho e planejar sua remuneração quando estiverem na inatividade. Esta gestão não deve ficar inteiramente sob a responsabilidade do governo, até porque os nossos já demonstraram serem maus gestores dos nossos recursos. Por outro lado, liberdade implica em maior responsabilidade – pois cada um dependerá muito mais de si próprio. Para isso é necessário que haja uma profunda mudança cultural no país: o abandono do mito que há um grande pai, representado pelo Governo, que lança mão dos recursos do Estado e vai cuidar de nós. Até porque ele já não cuida, ou cuida muito mal. Para isso, obter educação financeira e de governança corporativa são alicerces fundamentais.

Conclusão:

  • As sociedades são sustentadas pelas pessoas que trabalham hoje;
  • Parte do rendimento desse trabalho deve ser investida em atividades que gerem riqueza e renda no futuro – deem retorno no longo prazo;
  • Ainda que parte deste investimento seja feito por intermediação do Estado, deve existir espaço para que os indivíduos apliquem suas poupanças de forma livre em investimentos de sua escolha sem esta intermediação;
  • Para que haja oportunidade de melhor alocação de recursos no tempo e diversificação de risco, é importante existirem instrumentos fungíveis como ações e títulos de dívida que tenham maior liquidez, acessíveis a pequenos poupadores diretamente ou por meio de gestores profissionais;
  • Aumentar a oferta desses títulos significa incentivar as empresas a abrirem seu capital para que poupadores brasileiros tenham acesso à riqueza que geram utilizando-se dos recursos naturais, humanos e financeiros do país, como sócios capitalistas e não apenas por meio da renda do trabalho ou por mecanismos redistributivos como saúde pública e educação;
  • Neste contexto, indivíduos investidores precisam ter educação financeira e saber o que é governança corporativa, pois serão eles próprios os responsáveis pelo acompanhamento dos investimentos que fizerem ao longo da vida para provê-los na inatividade;
  • Os recursos investidos em empresas contribuirão para o crescimento do PIB aumentando o tamanho da riqueza a ser dividida;
  • Para reduzir o risco de um cataclismo previdenciário é preciso que o sistema de previdência pública seja guiado por um princípio de renda mínima e se equilibre, eliminando a aposentadoria por tempo de contribuição, adiando a idade de aposentadoria para novos entrantes conforme o aumento na expectativa de vida e criando regras de transição inversamente relacionadas à sua e à atual idade de aposentadoria;
  • Se há aumento na expectativa e na qualidade de vida, a sociedade precisa mudar sua visão em relação à idade em que o indivíduo se torna idoso, eliminando subsídios para aposentados e entendendo que é necessário trabalhar por mais tempo antes de se aposentar;
  • As empresas têm a obrigação de repensar suas estruturas de custo, modelo de trabalho e emprego para criar mais empregos e com características diferentes possibilitando que as pessoas fiquem empregadas por mais tempo e repensando a alocação do trabalho levando em conta o fator idade;

A sociedade brasileira precisa tornar-se adulta, isto é, assumir a responsabilidade por seus atos e a condução do seu futuro, abandonando de vez a ideia de que os problemas serão resolvidos por um grande pai representado pelo Estado para quem o dinheiro cai do céu. O Estado, gerido pelo Governo, faz apenas tirar de uns para dar a outros. No processo, fica com enorme fatia para se sustentar. O Governo brasileiro então, já demonstrou inúmeras vezes, ser péssimo gestor do dinheiro alheio.

[1] Reportagem de Miriam Leitão com fotos de Sebastião Salgado – O Globo (4/8/2013)

[2] As sociedades orais não têm como armazenar conhecimento fora da memória das pessoas. Em consequência o conhecimento técnico se limita àquele que se pode armazenar na memória de cada um e a transmissão deste só se dá por meio presencial. As sociedade letradas registram conhecimento fora da mente humana, possibilitando um acúmulo deste ao longo do tempo, ampliando sua transmissão (por meio da comunicação não presencial) o que possibilita maior desenvolvimento tecnológico.

[3] Chanon, Napoleon – Yanomamö, The fierce people (1977)

[4] Não estamos esquecendo do papel biológico do homem na reprodução humana, mas enfatizando o trabalho e uso do corpo para a execução desta atividade econômica. Dado que a gestação e a amamentação envolvem o uso do corpo da mulher, há de se convir que sua participação econômica direta na reprodução da mão-de-obra é maior. Cabe às mulheres o trabalho que consome tempo e esforço físico para executar o único mecanismo de transferência de riqueza para o possível futuro nessas sociedades.

[5] O livro de Eduardo Gianetti, O Valor do Amanhã (2005, Editora Schwarcz), introduz a temática da escolha intertemporal (alocação de recursos ao longo do tempo) e o conceito de juros.

[6] Campo de estudo dos antropólogos que, por sua vez, não estão especificamente preocupados em examinar apenas ou principalmente as estruturas econômicas das sociedades que estudam.

[7] Considero que o capital (financeiro, tecnológico, intelectual etc.) é fruto da interação, ao longo do tempo, dos únicos dois fatores de produção fundamentais – terra e trabalho ou capital natural e humano.

[8] Uso aqui deliberadamente o termo trabalho remunerado para distingui-lo de “emprego”. Este último é a forma institucional que substituiu a de trabalho servil e escravo e por meio do qual a maior parte das pessoas não detentoras dos seus próprios meios de produção vendem seu trabalho. Frequentemente, o trabalho que não é realizado na forma de um emprego, não é remunerado (ou não tem preço atribuído) e por isso, parece que não tem valor ou não é percebido como trabalho.

[9] Chile, Nova Zelandia, Russia, países nórdicos, por exemplo.

[10] O custo de crianças criadas em condições precárias também.

[11] Fabio Giambiagi – Demografia I-XII artigos publicados em datas variadas no Valor Econômico utilizando estatísticas do IBGE e do Dept. of Economic and Social Affairs – World Population Prospects – ONU.

[12] “Enquanto os IPOs não vem”, Valor Econômico (14/2/2013)

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